Igreja e artes
William Temple, Arcebispo de Canterbury (1942-44), escreveu: "Adoração é a submissão de toda a nossa natureza a Deus. É deixar que a nossa consciência seja despertada pela essência de Deus; o sermos alimentados pela Sua verdade; a purificação da nossa mente pela Sua beleza; o abrir do nosso coração ao Seu amor; finalmente, a rendição total à Sua vontade e propósito."
A vivência diária de comunhão com Deus contrasta drasticamente com muitas das ideias pré-concebidas existentes, mesmo no meio de algumas comunidades. Muitas vezes se assume que, se cantamos algumas canções... se colocamos uma oferta no cesto... se nos ajoelhamos diante do altar... se sentimos algo que satisfaz as nossas emoções... está tudo bem. Já fizemos a nossa parte, e agora podemos regressar a casa e viver as nossas vidas "normais", porque Deus já ficou satisfeito.
No entanto, a satisfação do Pai é que façamos da nossa vida total - 24/7 - um local de manifestação da Sua presença, e que usemos os dons com que nos brindou ao Seu serviço.
Como discípulo, um artista não é diferente dos outros cristãos. Se ele estuda e cria as suas raízes na Palavra, se mantém um relacionamento saudável com o Senhor, naturalmente o seu desejo tende em fazer a vontade de Deus e a sua resposta será usar a sua arte como agradecimento e adoração ao próprio Deus.
Muitas vezes, quando falamos de arte cristã, pensamos no óbvio - a música. Quero no entanto colocar aqui o meu foco em formas de arte habitualmente não usadas na liturgia; não é meu objetivo dizer que devem ou não ser usadas nas reuniões da própria igreja, isso cabe a cada grupo decidir quando e onde, conforme o seu contexto, antes pretendo dar pistas para como se podem utilizar para demonstrar os benefícios do Evangelho, onde quer que sejam produzidas.
Uma das principais demonstrações de adoração é o reconhecimento de que, não importa o tipo de talento que temos, não importa o quão bons somos naquilo que fazemos, precisamos de entender que tudo vem de Deus e que nada podemos assumir como mérito nosso.
Esta é uma primeira dificuldade do artista; e quanto melhor ele é no que faz, quanto mais adulado é pelos que estão à sua volta, mais difícil é manter a sua natureza carnal em sujeição e não permitir que sentimentos de orgulho toldem a sua mente para a verdade de que tudo o que somos é por Ele e para Ele.
Influenciar outros implica partilhar o que temos, e a melhor maneira de o fazermos é quando entendemos que o que transmitimos não tem o objetivo de simplesmente demonstrar a mestria das nossas capacidades, mas para conseguirmos mais eficazmente transmitir uma mensagem.
A mensagem que o cristão transmite é a mais importante que pode alguma vez ser transmitida. Este ato deve ser executado então da forma mais excelente possível.
Seja qual for a arte em que se move, o discípulo de Jesus entende que o mais importante na sua vida é a mensagem que passa, a marca que deixa, não só quando executa algo, mas também nos pequenos gestos diários.
Algo que não podemos esquecer nunca é que quantas mais pessoas nós atingimos com a nossa arte, mais visíveis nos tornamos, e maior cuidado temos que ter com este pequenos gestos.
O apóstolo Paulo tinha uma noção clara da importância da vivência diária no discipulado e na apresentação do evangelho a outros. Sabia o poder das epístolas, usava e abusava delas no contacto com os seus interlocutores, e talvez por isso escreveu em II Coríntios 3:2: " Vocês mesmos são a nossa carta, escrita no nosso coração, para ser conhecida e lida por todos." Um artista deve pincelar os corações das pessoas que o rodeiam demonstrando, não simplesmente a sua arte, mas o amor de Deus manifestado nessa mesma arte.
Na igreja de Cristo muitas vezes tem faltado a revelação e, consequentemente, o espaço para o florescer de outras formas de arte que não as normalmente usadas na sua liturgia. Outrora as igrejas eram responsáveis pela penetração das artes na sociedade. Se as pessoas quisessem ver grandes criações de pintura, escultura, por exemplo, seria na igreja que as encontravam. O mundo mudou, a arte secularizou-se e passou a ter uma relação não muito amistosa com a igreja; como tal, temos a responsabilidade de não deixar calar a dimensão profética que existe nos artistas contemporâneos. Esta dimensão não se encontra só nos seus instrumentos musicais, mas também nos pincéis e escopros, nas coreografias, nas danças e encenações, na engenharia de luz, etc, etc.
A vida do discípulo deve ser uma vida de influência e o artista não deve ser exceção. Infelizmente, demasiadas vezes acontece que este processo se reverte e é o artista cristão que se deixa influenciar por teorias humanistas e dualistas, que retiram muitas vezes da sua voz interventiva os conceitos e valores divinos que deveriam conter. Para evitar isto, as igrejas devem proteger e motivar estas pessoas, dando-lhes ferramentas que os ajudem e motivem no desenvolvimento dos seus dons, sem comprometimento dos seus valores.
É necessário que os líderes estejam abertos à criatividade, às diferenças de estilo, inclusive até no modo como alguns se podem apresentar nas reuniões da comunidade. A Igreja tem de ser inclusiva, não apenas teoricamente, mas funcionando como um lugar de refúgio onde todos sentem prazer em estar.
Formas de arte como a escultura ou pintura, a fotografia ou o cinema, não são usadas normalmente nas nossas liturgias, mas dependendo dos contextos, acredito que isso possa acontecer aqui e ali. A área audiovisual, por exemplo, é uma área que a igreja como transportadora de uma mensagem não pode descuidar. Cada vez mais vemos anúncios e outros auxiliares da liturgia serem feitos em vídeo. Porque não utilizar pequenas metragens para passar mensagem, se tivermos atores e realizadores na comunidade? Porque não dar espaço nas igrejas, por exemplo, a exposições que por um lado revelem o que os artistas desejam transmitir, e por outro sejam fatores que os motivem a fim de exercerem mais eficientemente a sua arte em prol do reino de Deus? Com ações deste tipo estamos a valorizar os artistas, ao mesmo tempo que atraímos outros que de outro modo nunca viriam até nós.
Uma liderança eficaz é aquela que percebe o melhor que há em cada elemento, potencializando as suas capacidades e recursos. Muitas vezes os artistas têm sido vistos como "diferentes", prescindíveis, sendo marginalizados por isso mesmo. Está na hora da igreja perceber que a sua sensibilidade e criatividade, seja em que área de ação se encontrem é necessária, mesmo essencial, para que a voz profética da igreja se possa ouvir em outros lugares e que a profecia de Habacuque 2:14 se possa cumprir - "...a terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor, como as águas cobrem o mar" .
